Dos territórios indígenas às periferias, estudo ouviu mais de 1,5 mil pessoas em São Paulo, Recife e Santarém, propondo um novo paradigma para a justiça informacional no Brasil
A Coalizão de Mídias Periférica, Favelada, Quilombola e Indígena lança em maio a pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil”.
A construção do documento marca um momento histórico para a comunicação brasileira ao colocar os próprios territórios como sujeitos produtores de dados e conhecimento.
Realizada em três regiões distintas do país — São Paulo, Recife e Santarém — a pesquisa preenche uma lacuna crítica no campo da comunicação.
“Decidimos realizar essa pesquisa a partir de uma ausência: sabemos pouco sobre como a informação e a desinformação operam, de fato, nos territórios periféricos”, explica Thais Siqueira, diretora da Coalizão. “A maioria dos estudos trabalha com dados agregados que não capturam o cotidiano. A pesquisa nasce da necessidade de aprofundar esse olhar a partir de dentro”.

Metodologia: o território como protagonista
A pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias” foi realizada em parceria com o Observatório Ibira30 e apoio da Fundação Tide Setubal.
Seu diferencial reside em seu método. Fugindo da lógica tradicional de “público-alvo”, a Coalizão de Mídias recrutou pesquisadores, jornalistas e comunicadores de cada localidade. Em Recife, artistas de rua e jovens mães foram treinados; em Santarém, a coleta superou os desafios tecnológicos sendo realizada integralmente em papel para respeitar a dinâmica local.
Para Yane Mendes, diretora da Coalizão, a iniciativa é um ato de soberania. “Sempre fomos vistos como ‘os dados’, como o ‘público-alvo’. Sentimos a necessidade de fazer uma pesquisa do nosso jeito, para ter munição e comprovar que a desigualdade impacta diretamente o nosso acesso à verdade. É um grito de que nossos corpos não dão conta de resolver sozinhos o problema da desinformação sem colaboração estrutural”, afirma.

Alertas ao jornalismo
Um dos dados mais relevantes da pesquisa revela que a maioria dos entrevistados nos três territórios não conhece sites de checagem de notícias. O dado acende um alerta vermelho para o ecossistema jornalístico: as ferramentas atuais de combate à desinformação não estão alcançando as populações mais vulneráveis.
“Isso coloca um desafio direto: não basta produzir checagem. A pesquisa mostra que essas iniciativas não estão chegando a quem mais precisa delas”, analisa Thais Siqueira. Para a diretora, o futuro do jornalismo exige uma “recalculação de rota” que privilegie o vínculo e o pertencimento.
“As mídias territoriais fazem parte de redes de confiança porque os jornalistas são moradores. Existe responsabilidade com a informação que circula ali”.
Thais Siqueira, diretora da Coalizão de Mídias e integrante do Desenrola e Não me Enrola
Recortes de gênero, raça e clima
O estudo utilizou a interseccionalidade para entender as nuances do consumo de notícias. Em Recife, observou-se que as mulheres são as principais buscadoras de serviços públicos e educação, reflexo da dupla jornada e do papel de cuidado.
Em Santarém, o interesse por questões climáticas e ambientais é significativamente superior ao de São Paulo, evidenciando como a pauta da justiça climática é urgente nos territórios do Norte.
Já em São Paulo, os desafios da inteligência artificial e da sobrecarga informacional apareceram com mais força entre os jovens, enquanto os idosos demonstraram ser mais cautelosos, recorrendo a redes de confiança pessoal antes de compartilhar conteúdos.
Uma ferramenta de transformação social
A Coalizão de Mídias entrega este estudo não apenas como um documento acadêmico, mas como uma ferramenta política para filantropias, universidades e tomadores de decisão.
“Estamos disponibilizando uma ferramenta de transformação social. É um convite para as instituições chegarem junto e escutar o povo”
Yane Mendes, diretora da Coalizão de Mídias e integrante da Rede Tumulto (PE)
Pesquisa “Dos territórios indígenas às periferias: retratos da desinformação e do consumo de notícias para reimaginar a justiça informacional no Brasil”
