Como continuidade da nossa série de conteúdos sobre as leis 10.639/2003 e 11.654/2008, nós do Maré 0800 junto à Coalizão de Mídias, publicamos mais uma super entrevista com o educador e comunicador Jota Marques. Ele fundou o Coletivo Marginal, na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, e é cofundador do Vidas Negras com Deficiência Importam (VNDI).
Na pandemia da Covid-19 atuou na linha de frente no combate à fake news e à fome, junto ao seu coletivo fundou uma Cozinha Solidária. Durante alguns anos, trabalhou ainda no Sistema Socioeducativo e aqui ele traz a importância de se trabalhar em salas de aulas sobre tais leis que contam a verdadeira história do país, fazendo com que adolescentes e jovens se vejam, se identifiquem, que criem memórias diferentes daquelas passadas nas mídias comerciais. Leia a entrevista completa abaixo:

1 – Apresente-se, fale um pouco quem é o Jota: Nome, sobrenome, idade, coletivo, profissão…
Meu nome é Jota Marques, tenho 34 anos. Sou comunicador, educador popular e articulador social. Sou fundador do Coletivo Marginal, na Cidade de Deus, e cofundador do VNDI. Minha trajetória profissional e política passa pela comunicação, pela educação popular, pela defesa de direitos e pela construção de projetos dentro e a partir das favelas.
2 – Fale um pouco da sua atuação como comunicador/educador popular na Cidade de Deus e nas favelas do Rio de Janeiro
Minha formação como comunicador e educador popular aconteceu muito antes de qualquer formação institucional. Ela aconteceu na Cidade de Deus, na organização comunitária, na rua, nas reuniões, nas escolas, nos movimentos, nos conflitos e na necessidade de construir outras narrativas sobre os lugares de onde a gente vem.
O Coletivo Marginal nasceu, em 2015, muito dessa percepção: nós não queríamos apenas disputar a forma como a favela era retratada. Queríamos que moradores de favela tivessem condições de produzir suas próprias narrativas, formular politicamente sobre seus territórios e ocupar os espaços de comunicação.
De lá para cá, minha atuação se ampliou para diferentes favelas do Rio. Tenho trabalhado com formação, comunicação, cultura, direitos humanos, juventude e articulação territorial. E sempre tento partir de um princípio: a favela não é apenas o lugar onde uma política pública chega. É um lugar que produz conhecimento, linguagem, cultura, tecnologia social e leitura de mundo.
Para mim, educação popular e comunicação estão profundamente ligadas porque ambas têm a ver com quem pode falar, quem pode produzir conhecimento e quem é reconhecido como sujeito da própria história.
3 – Temos no Brasil leis que incentivam os estudos/educação sobre a cultura afro e indígenas nas escolas, assim como as 10.639/2003 e 11.654/2008, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Você como educador, como enxerga o funcionamento de leis como estas nas escolas que estão dentro das favelas?
A primeira coisa é reconhecer que essas leis foram uma conquista histórica e são fundamentais. O problema é a distância que muitas vezes existe entre a existência da lei e a transformação efetiva do cotidiano escolar.
Não basta colocar a história africana, afro-brasileira e indígena em uma atividade no mês de novembro ou em uma data comemorativa. Estamos falando de mudar a própria maneira como o Brasil é ensinado.
Isso é ainda mais importante nas escolas das favelas porque muitos dos estudantes são negros, indígenas ou descendentes de populações que foram historicamente retiradas da narrativa oficial do país. Muitas vezes, o jovem passa anos dentro da escola aprendendo muito pouco sobre pessoas que se parecem com ele como produtoras de conhecimento, de ciência, de filosofia, de cultura e de transformação política.
E isso produz consequência.
Porque a educação também organiza a maneira como uma criança se enxerga no mundo.
Quando um estudante conhece a história da população negra apenas pela escravidão, por exemplo, existe uma mutilação histórica. A história africana não começa no tráfico negreiro. A história negra brasileira também não se resume à violência sofrida. Há produção intelectual, resistência, tecnologia, organização política, arte, religiosidade, ciência, quilombos, movimentos sociais e construção de país.
Então a lei pode ser extremamente transformadora, mas precisa estar acompanhada de formação de professores, material pedagógico, continuidade e compromisso institucional. Não pode depender apenas da boa vontade de um professor ou de uma professora mais comprometida.
4 – Para além da atuação como comunicador, educador, você se tornou trabalhador do sistema socioeducativo, leis como estas são ensinadas no sistema socioeducativo? Ela faz ou faria diferença nesse lugar na vida de um jovem negro morador de favela que passa por diversas violações cotidianas? Qual sua análise sobre isso? No que ela poderia mudar na vida de um adolescente, jovem, negro morador?
No sistema socioeducativo, essa discussão ganha uma dimensão ainda mais profunda.
Porque estamos falando de adolescentes que frequentemente chegaram até ali depois de uma sequência enorme de violações. O sistema socioeducativo aparece no final de uma trajetória em que muitas outras políticas públicas falharam ou chegaram de maneira insuficiente.
E há uma contradição muito forte quando um Estado que durante boa parte da vida daquele jovem não conseguiu garantir plenamente educação, cultura, esporte, proteção e oportunidades passa a encontrá-lo principalmente através do sistema de justiça.
Por isso, ensinar história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nesses espaços não é um detalhe curricular. Pode ser parte de um processo de reconstrução de identidade e de pertencimento.
Existe uma violência muito grande em crescer ouvindo, direta ou indiretamente, que o seu território é um problema, que pessoas como você representam perigo e que os lugares socialmente valorizados não foram feitos para você.
A educação pode interromper um pouco essa lógica.
Quando um adolescente negro consegue compreender que existe uma história anterior às violências que atravessaram sua vida, que pessoas como ele produziram conhecimento, organizaram revoltas, construíram cidades, criaram tecnologias, literatura, música, filosofia e formas próprias de existência, muda alguma coisa na relação dele consigo mesmo e com o mundo.
É evidente que nenhuma disciplina, isoladamente, resolve desigualdade, racismo ou violência institucional. Seria injusto colocar esse peso sobre a educação.
Mas existe uma diferença enorme entre um processo socioeducativo baseado apenas em disciplina, punição e adequação e outro que também oferece repertório para que aquele jovem compreenda a sociedade, sua história e a si próprio.
Se estamos falando de socioeducação, precisamos perguntar: educar para quê? Para que esse adolescente apenas se adapte à sociedade que o violentou ou para que ele tenha ferramentas para compreender essa sociedade, reivindicar direitos e imaginar outros futuros para si?
Para mim, é aí que uma política como essa encontra uma de suas maiores potências.
